Especial Adoção: Quando o Amor Transcende o Impossível, por Karol Pinto (Parte 02)

“Não imaginava o quanto tinha sido abençoada”
A Médica Veterinária Roberta Anastácio, 43 anos, contrastava com as crianças e adolescentes de um dos abrigos visitados pela redação do Jornal de Pomerode, localizado em Blumenau. Seus olhos percorriam cada canto, como se procurasse algo deixado em seu passado.
Aquele dia chuvoso qualquer, do mês de outubro, foi para ela a oportunidade de juntar mais uma das tantas peças do quebra-cabeça de sua vida, pois lida, até hoje, com questões relacionadas ao abandono. Sua mãe biológica a deixou em um hospital de São Paulo, logo após o parto, sem um motivo concreto. O que ela sabe, é que seu pai não queria uma filha mulher, somente homens. A aceitação tornou-se ainda mais complicada, pois Roberta tinha uma série de problemas de saúde.
“Assim que nasci, meu pai pediu para minha mãe escolher entre ficar comigo ou seguir casada com ele. Ela optou por ele e me deixou no hospital por quatro meses, sem amor, sem carinho, sem identidade, sem roupas. Como se fosse fácil seguir sua vida, sem olhar para trás, sem pensar em mim”.
Se de um lado faltava amor por parte da família biológica de Roberta, do outro, sobrava um vazio gritante no coração de sua tia, uma espécie de mãe adotiva, que trabalhava como enfermeira no mesmo hospital em que a menina nasceu. “Os detalhes da minha adoção sempre foram ocultados. Na verdade, só quando adulta percebi que não correu tudo como apregoa a lei. Naquela época, o processo era bem menos fiscalizado e burocrático. Minha tia simplesmente me pegou nos braços e me levou do hospital. Partimos para o Vale da Paraíba. Fui em uma caixa de sapatos, de tão subnutrida que estava. Fui registrada por sua irmã para não comprometer a sua carreira. Ela, igualmente, não podia ter filhos biológicos. Minha tia tinha um namorado na época, uma espécie de pai para mim, mas que não chegou a me registrar”.
Até então, Roberta era somente a menina na caixa de sapatos, não tinha ainda um nome. Seus tios e sua mãe conseguiram registrá-la em um cartório em São José dos Campos, como se tivesse nascido na mesma cidade, no dia 1º de setembro. “Depois, a luta foi para que eu me desenvolvesse. Alimentação totalmente caseira, para me nutrir. Tudo feito com muito amor pela minha família, nada convencional. Duas mães e um pai. Mesmo tendo sido apadrinhada por meus tios, deve a minha tia, aquela enfermeira, minha vida, pois ela que me acolheu quando, sabe-se lá qual seria meu destino. Acredito que teria morrido ainda naquele hospital”.
Na adolescência, a curiosidade despertou em Roberta o desejo de conhecer fragmentos de sua história, de sua origem. “Contei para meu pai que tinha vontade de conhecer detalhes do meu passado, sentia que eles me escondiam algo. Foi a única vez que eu vi uma lágrima escorrer do rosto dele. Ele disse que tudo o que sabiam sobre mim, haviam me contado. Falou que eu não tinha nascido no dia 1º de setembro e sim no dia 03 de maio, mas que essa era a única informação que eu desconhecia. Passei a comemorar meu aniversário duas vezes por ano, o dia em que eu vim para a vida e o dia que ganhei uma família. Desisti de conhecer minha família biológica. Então, achei melhor deixar nas mãos de Deus”.
A Roberta que entrou naquele abrigo, certamente não é a mesma que saiu de lá. Após se deparar com a realidade de ser um acolhido, uma vivência que poderia ter sido a sua, não conteve as lágrimas ao entrar no carro, dizendo: “não imaginava o quanto tinha sido abençoada”.

 

“Perfil restrito é um coadjuvante do tempo”
Atualmente, dos mais de 37 mil pretendentes inscritos no Cadastro Nacional de Adoção, gerido pela Corregedoria Nacional de Justiça, órgão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 5.019 são pessoas solteiras. Nesta estatística, se enquadra Sandra Saraiva, de 40 anos.
Adoção era um tema que Sandra não havia cogitado. Algo que não estava presente em sua vida. Porém, a vontade de ser mãe, sim. “Sempre quis ter filhos, família grande, como a minha. Não casei, e nenhum dos meus relacionamentos foram sérios a ponto de gerar uma criança. Sou biologicamente fértil, mas nunca tentei engravidar. Quando o amor de mãe brotou, corri e dei entrada aos papéis. Sabia que meus filhos viriam por essa cegonha”.
O seu processo de habilitação foi relativamente rápido, até por se tratar de um perfil amplo: adoção tardia e grupo de irmãos. “Dei entrada em dezembro de 2008 e fui habilitada em agosto de 2010. As entrevistas foram seis meses após a entrega dos papéis. Participei de reuniões no Grupo de Apoio e retirei as certidões negativas. São encontros realmente esclarecedores e importantes. Muitas das minhas dúvidas já foram sanadas ali. No grupo, conheci, por convite de uma diretora de um abrigo, um menino chamado Fernando, de nove anos, que não estava disponível à adoção. Mas, conhecê-lo, abriu meu coração para crianças maiores”.
Mas nada pode ser comparado ao momento em que Sandra conheceu seus filhos. “Foi em outubro de 2011 e, no dia 11 de dezembro do mesmo ano, eles vieram de vez. Foi um momento mágico, todos nós estávamos dispostos à adoção. A minha menina tinha oito anos e seus irmãos cinco e dois aninhos. No dia em que a conheci, entre tantas crianças, ela me perguntou, mesmo sem saber que eu seria sua mãe e que estava ali para conhecê-la: -Tia, você é casada? – Não, respondi. – Você tem namorado? – Não! -Então por que você não adota uma criança? – Eu não vim aqui para adotar uma criança, eu só vim conhecer vocês. – Eu quero ser adotada, eu quero ter uma família, eu quero ser livre!, disse a garota”.
Sandra pediu à psicóloga do abrigo para deixá-la voltar outro dia, para dar uma resposta definitiva. “Estava com milhões de borboletas no estômago. Não conseguia pensar direito. Voltei na semana seguinte e ela veio correndo em minha direção. Antes que eu falasse alguma coisa, me apresentou como sua nova mãe. E, minha mãe, como sua nova avó. Foi fantástico! Os meninos vieram aos poucos, o caçula nem percebeu o que estava acontecendo”.
Conforme Sandra, o amor de mãe e filhos nasceu instantaneamente. “Tive certeza de que eram eles. Não foi fácil no começo, cerca de três meses de testes. Depois, tudo foi entrando nos eixos. Com a convivência, tudo amadurece, nos conhecemos melhor e definimos os limites”.
Por se tratar de adoção tardia o assunto sempre foi discutido abertamente entre Sandra e seus filhos. “Os meus dois mais velhos sempre souberam. O caçula, começou a perguntar aos cinco anos se tinha nascido da minha barriga, se tinha mamado no meu peito. Sempre contamos a verdade. Quando percebi que ele estava pronto para saber mais detalhes, conversamos. Tudo foi contado corretamente, sem melindres, meias verdades ou medos”.
Sandra, diferentemente de alguns adotantes, quis saber todos os detalhes disponíveis sobre seus filhos, quando ainda estavam inseridos em sua família biológica. “Conhecer não deve ser opção, mas obrigatório. Quando se adota uma criança, se adota sua bagagem. Não são histórias felizes. E os adotantes devem ter certeza que vão conseguir superar as dificuldades. Ainda existem lembranças. Agora, menos intensas que antes”.
Sandra explica qual foi a maior dificuldade enfrentada até hoje. “Bem, no início, minha filha não aceitou deixar de ser a mãe dos meninos e passar a ser só irmã, só uma criança. Ela rejeitava as correções e dizia que queria voltar ao abrigo. Mas, com pulso firme e sem medo de causar mais traumas, fomos impondo limites”.
Para Sandra, restringir de maneira seletiva o perfil no momento da adoção, é postergar a construção de uma família. “Acredito que cada um tenha uma verdade dentro do coração. O meu perfil era uma criança, de três a cinco anos. Menina ou menino, branco, preto ou cor de abóbora. Doenças tratáveis. Mas sempre soube que iria ganhar mais de um filho. Perfil restrito é um coadjuvante do tempo. Sou a favor e divulgadora da adoção tardia. É preciso, antes de tudo, saber qual criança cabe em seu coração. Acredito que o medo e o preconceito ainda são os fatores que mais interferem no perfil”.
Finalizando, Sandra deixa um apelo. “Visitem os abrigos. Por favor, visitem os abrigos! Abram seus corações para crianças que já nasceram. Nunca gostei da ideia de esperar que uma mulher engravidasse, rejeitasse ou maltratasse uma criança recém-nascida, para que eu pudesse ser feliz. Não, eu queria filhos prontos, indiferente da idade”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *