Especial Adoção: Quando o Amor Transcende o Impossível, por Karol Pinto (Parte 03)

“Não sinto nenhuma diferença pelo fato de minha filha ser adotada”
Zita Leal, 64 anos, servidora pública aposentada, esperou conquistar a tão sonhada estabilidade financeira, profissional e emocional para realizar o sonho da maternidade. “Desde sempre, quis ser mãe de uma menina. Depois, decidi que adotaria. Como sou solteira, resolvi esperar por uma vida mais tranquila, casa própria e tempo disponível para me dedicar à minha filha”.
Após estar devidamente habilitada no Cadastro Nacional de Adoção, a espera durou dois anos e meio. “Nunca fiz questão que fosse bebê, nem que fosse branca. Só queria que fosse uma menina de até quatro anos. Não sofri preconceito por parte de minha família, mas também não contei com muita ajuda. Isabela tinha a idade limite que estipulei e fará 16 anos em dezembro”.
Ser chamada de mãe foi uma das experiências mais emocionantes na vida de Zita. “Nunca vou esquecer a terceira vez que a visitei no abrigo, quando ela me perguntou se eu era sua mãe e lhe devolvi a pergunta, questionando-a se gostaria que eu fosse. Respondeu acenando a cabeça, afirmando que queria ir comigo para casa. Foi difícil. Não podia levá-la. Ficou chorando. Comecei a buscá-la para passar os sábados, domingos e feriados. Dois meses depois, consegui a guarda provisória. E, em um ano, a Certidão de Nascimento”.
Um dos problemas enfrentados na adaptação foi a saudade que sua filha sentia das outras crianças com quem convivia no abrigo. “Nossa adaptação foi tranquila. A dificuldade dela foi a saudade que sentia das outras crianças. Tivemos alguns problemas com escolas. Agora, ela está bem. Sente-se acolhida. Foi uma criança alegre, sociável, querida e hoje é uma adolescente linda. Não sinto nenhuma diferença pelo fato de minha filha ser adotada. Ela também é bem resolvida quanto a isso. Quando menor, fazia muitas perguntas. Hoje, raramente menciona o assunto”.

 

“Decidi aceitar o filho que o Universo quisesse me dar”
Lucia Viam, 47 anos, professora, tinha um sonho que a acompanhava desde criança: ser mãe. “Desde que me lembro, quando perguntavam o que eu queria ser quando crescer, eu respondia: Mãe! E sempre planejei uma casa cheia de filhos. Meus planos incluíam biológicos e adotivos. Eu tenho três filhos biológicos, já adultos. Como adotar sempre foi assunto em casa, não tivemos problemas quando resolvemos começar o processo”.
A experiência em fazer parte do projeto “Família Acolhedora”, auxiliou na preparação da tão sonhada adoção. “Antes e durante o processo fazíamos parte do projeto, então, as visitas e entrevistas com a Psicóloga e com a Assistente Social foram feitas de maneira tranquila, já que elas estavam constantemente visitando nossa casa por causa das crianças acolhidas. Foram dez meses até estarmos habilitados. No início, escolhemos um perfil bastante comum, até cinco anos, qualquer gênero e etnia, doenças tratáveis. No decorrer do processo, comecei a acompanhar os grupos de adoção e percebi que as crianças mais velhas, com irmãos e, principalmente, as com doenças graves, eram esquecidas. Decidi, então, que queria um filho que estivesse precisando muito de uma mãe. Alterei o perfil, deixando-o sem nenhuma restrição. Decidi aceitar o filho que o Universo quisesse me dar”.
O encontro com suas filhas deu-se através da Busca Ativa. “Encontrei minhas filhas antes de estar habilitada. No post dizia: ‘Gêmeas, negras, bebês, diagnosticadas com Fibrose Cística’. Mesmo antes de estudar a doença, senti que eram minhas filhas e entrei em contato com a ‘cegonha’, que me passou para outra, e aí a correria começou. As meninas tinham urgência em saírem do abrigo por precisarem de cuidados. Minha habilitação estava parada. Foi só nesse momento que senti a ansiedade que todos tanto comentam. A equipe da Comarca das meninas, extremamente comprometida com a adoção, passou a pressionar o pessoal da minha Comarca, para acelerar o fim do processo. Só faltava a assinatura do juiz e, mesmo sem saber se iria dar certo, partimos em uma viagem de 1.200 quilômetros para buscar nossas meninas. Só ficamos sabendo que estávamos habilitados depois que já tínhamos conhecido as pequenas, no dia 16 de dezembro. O Fórum entraria em recesso no dia 18 do mesmo mês. Pela necessidade delas, não tivemos período de aproximação. As conhecemos em um dia e dois dias depois estávamos com elas em casa”.
Quando as recebeu, Lucia relata que as meninas tinham um desenvolvimento abaixo do esperado para a idade. “Eram pequenas, desnutridas, assustadas e com uma doença que, apesar de termos estudado muito, na prática é bastante assustadora no começo”.
Além de readequar sua rotina e buscar o tratamento adequado para suas filhas, Lucia enfrentou outro problema, o preconceito de algumas pessoas. “O mais difícil foi começar a entender o preconceito, o racismo. Muitas das pessoas que nos apoiavam no início, se afastaram. Ouvimos coisas do tipo: ‘Não podiam escolher com saúde?’ e ‘Não tinha branco?’. Essa fase foi muito sofrida para mim, eu realmente não esperava isso. Mas superei por descobrir que o parto adotivo é absurdamente mais doloroso que o parto biológico. Superei, pois, o amor que se constrói a cada noite ouvindo e avaliando a respiração das crianças, cada olhar de carinho que a gente recebe, cada primeira vez que aquelas crianças não tiveram a oportunidade de viver na época certa, esse amor, é infinitamente mais especial”.
As meninas são chamadas, carinhosamente, pela família de “Amorinhas”. “Chegaram para nós com um ano e oito meses, mas com tamanho de um bebê de dez meses. Hoje, com dois anos e sete meses, estão com peso e altura normais para a idade. São os xodós da família, que se transformou totalmente com a sua chegada. Às pessoas que não aceitam essas crianças, as maiores, as mais sofridas, as que mais precisam de família, só posso dizer: ‘Vocês não fazem ideia do que estão perdendo’”.

 

Sem instituição de acolhimento, mas com acompanhamento
O Ministério Público de Pomerode trabalha para a conscientização da necessidade de uma instituição acolhedora na cidade. Por ora, todas as crianças pomerodenses que são retiradas de seus lares são encaminhadas a entidades de nossa região.
Mesmo distantes de sua cidade natal, as crianças e adolescentes recebem acolhida e acompanhamento do Ministério Público e Poder Judiciário. Apesar de estarem abrigadas, nem todas as crianças estão aptas à adoção. Isso porque a destituição do Poder Familiar é um pressuposto para tal ação.
Em Pomerode, não há instituição de acolhimento e nem famílias acolhedoras. “As instituições de acolhimento podem ser da modalidade Casa Lar ou Abrigo Institucional e são o local em que, na maior parte das vezes, e no caso em Pomerode, as crianças são encaminhadas quando afastadas de sua família biológica. Não temos aqui nem Casa Lar, nem abrigo, nem famílias acolhedoras. Estamos em fase de tratativas com o Município, no sentido de conscientizar o Poder Público da exigência legal de que o acolhimento das crianças se dê o mais próximo possível de suas bases e raízes, até para que os vínculos sejam rompidos apenas com a família e não com os outros referenciais que a criança tem, como escola, amigos, entre outros”, explica a Promotora de Justiça da Comarca de Pomerode, Dra. Rejane Gularte Queiroz Beilner.
O Ministério Público revela, ainda, que o processo de adoção é avaliado caso a caso. “A existência de crianças em abrigos não se deve, como muito se especula, ao processo de adoção. O que demora é o processo de destituição familiar, o que faz com que ela fique acolhida, às vezes, por mais tempo. O ECA e o próprio Juízo da Infância, tem em vista não os interesses da família que deseja adotar, mas sim os da criança. Nós buscamos achar uma família para a criança e não uma criança para a família que deseja adotar. Acaba sendo, muitas vezes, a mesma coisa, mas nosso foco é tentar ver possibilidades de colocação para aquelas crianças que estão acolhidas, sem um familiar, que permita a elas um desenvolvimento saudável, feliz e sem violação de direitos, o que normalmente faz a criança sair do lar biológico. Não se pode fazer testes. A maior parte dos casais, quando se inscreve no cadastro de pretendentes a adoção, tem um perfil de adoção bastante fechado, o que faz a espera ser extremamente longa, mesmo existindo no estado um grande número de crianças já aptas a serem adotadas”, comenta.
O Ministério Público atua de forma intensa na destituição familiar. “Na maior parte das vezes é o MP que ajuíza a ação de destituição do Poder Familiar por entender que aquela criança sofre uma grave violação de direitos e ao fim de processo se encaminha a criança para adoção. Ao MP cabe, com base na lei e nos elementos que vem a ele, decidir sobre a propositura ou não dessa ação. No trâmite da adoção, também acompanhamos diretamente, ou seja, a intervenção é nos processos judiciais em andamento, seja na destituição ou na adoção, no contexto de capacitação dos casais que estão pretendendo adotar”, conclui.

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